Durante 7 anos trabalhei nos concelhos de norte de Aveiro, as “Terras de Santa Maria”. Diariamente cruzava-me com o Vouguinha, esse enigmático comboio pintado a graffiti, que rodava lentamente no cruzamento da passagem de nível.

Sempre gostei de viajar de comboio, mas sempre fui um passageiro de viagens de longo curso. Nunca soube o que era viajar diariamente nos caminhos ferroviários. A curiosidade por saber o que era viajar naquelas carruagens vermelhas foi algo que me acompanhou durante esse período de tempo, nomeadamente quando as notícias locais davam o seu fim, como algo que o tempo não demoraria muito a trazer.

Passados 8 anos da primeira vez que me cruzei com o Vouguinha, decidi fazer a viagem Espinho – Oliveira de Azeméis.

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Chegado à Estação de Espinho, ou melhor Espinho-Vouga, abandonada junto ao Estádio Comendador Manuel Oliveira de Violas, há uma estação só para o Vouguinha, ponto de partida mais a norte da linha do Vouga.

Além do abandono aos tags de iniciados na Street Art, janelas e portas emparedadas ou as placas comemorativas dos 100 anos da Linha, não há ninguém para receber os passageiros diários ou viajantes perdidos de amores por comboios.

Neste dia, o primeiro comboio não partiu devido a uma avaria. Alguma informação…? Não, apenas os lamentos de um passageiro habitual, que pela falta de “pis” sonoros na escrita, vou guardá-los para mim.

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Por volta das 11 horas, chegou o segundo comboio e deu-se o início da viagem. O que para mim era uma experiência Kitsch, para outros mais uma viagem sofrível. O Vouguinha arrasta-se na maltratada linha do Vouga, ruidoso, desconfortável e com uma sensação permanente que a segurança já conheceu melhores dias.

Há determinados detalhes que parecem saídos de um filme de Wes Anderson, como o revisor ter que sair do comboio para mudar de carruagem.

O mais importante são os passageiros. Nota-se que o descuido da linha tem feito uma triagem para quem ainda viaja no Vouguinha. São estudantes, pessoas idosas sem outra forma de se deslocar ou quem ainda acredita que aquela é melhor forma de viajar.

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O percurso que se inicia no azul do Atlântico, logo é absorvido pelo verde das árvores que ladeiam os carris. Como o comboio não circula a uma velocidade elevada, é possível ver o quotidiano dos concelhos que fazem parte do trajecto. A parte rural de Santa Maria da Feira que é cortada pela indústria e urbanidade de São João da Madeira para voltar ao verde de Oliveira de Azeméis. Fim de linha, isto é… não devia, mas se quiser continuar até Sernada do Vouga devo fazê-lo de táxi —Sim, ainda continuamos num filme de Wes Anderson.

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Vouginha

Tempo de esticar as pernas e fazer a viagem de regresso.

Custa ver uma linha ferroviária centenária ser tão maltratada. Percebo que as acessibilidades modernas (deve ser das zonas do país melhor fornecida) tenham tirado passageiros ao Vouguinha. No entanto, além do serviço público prestado, há todo um potencial turístico por explorar.

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Espero que os caminhos-de-ferro lusitanos tenham um melhor tratamento num futuro próximo e não um caminho que seja exclusivamente litoral e de longo curso.

Há mais histórias do Vouguinha em breve 😉

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